Controlo de Pragas – Aves

Lisboa segue os passos de outras grandes cidades

Quando chega, pelas 7 da manhã, ainda está frio e nublado. A estrutura de vidro, que rodeia o terraço, está embaciada: é o momento ideal para fazer voar a águia: "Só assim é que ela consegue ver o vidro e situar-se no espaço", explica Hugo Sousa. O tratador ainda está nos primeiros dias do novo trabalho com cenário privilegiado: de um lado tem a vista desafogada sobre Lisboa, do outro o rio Tejo. Está no topo do novo porto de cruzeiros de Lisboa, que contratou o serviço do especialista e de duas águias antes de arrancar a época alta, com o habitual corre-corre de navios e turistas.

No fim do ano passado, Paris contratou cinco falcões para afugentar os pombos do 10émè arrondissement (que causam danos de 150 mil euros anuais nos edifícios) e no início deste ano Vancouver (Canadá) iniciou o projecto piloto com um falcão-peregrino numa estação de comboios (os pombos não só sujam tudo como fazem disparar alarmes que obrigam as carruagens a parar). Já no Dubai, este serviço é contratado por hotéis desde o fim da década de 90. A ideia é afugentar os pombos e as gaivotas pois esses animais não só criam ruído como sujam os edifícios e põem em causa a segurança. "São zonas de circulação de passageiros, de carregamento de mantimentos – temos de ter cuidado para não criar situações de infecção", explica Ricardo Ferreira, director-geral do porto de Lisboa. "Não podemos esquecer que o grande drama dos cruzeiros são as doenças a bordo, aquilo fica ali confinado e é uma incubadora gigante de doenças."

Pragas que detectam fraudes como gravações

Existem outros métodos para afastamento, mas a sua eficácia deixa a desejar – como as gravações que propagam sons emitidos por predadores. É que as gaivotas habituam-se e até em cima dos altifalantes poisam. Quem recorda o episódio é Rui Pinto, dos tempos em que era director da Marina de Cascais. "A gaivota é muito inteligente e rapidamente chega à conclusão de que aquilo é uma fraude. Os meus colegas, ao nível internacional, também se queixam", conta. Agora, enquanto responsável pela área de segurança do novo porto de Lisboa, mostra-se entusiasmado com a presença das águias – acredita que farão a diferença.

Hugo Sousa é um dos vários especialistas a trabalhar para a Animal Experience, empresa que promove a protecção das espécies através de visitas a escolas, feiras medievais e outros eventos. Começaram com o afastamento de aves há cerca de sete anos, no Algarve (onde estão sediados), com clientes como a Quinta do Lago e outros hotéis e condomínios privados que queriam os pombos longe. "Usamos animais para afugentar outros animais; é um acto natural", explica Paulo Almeida, dono da empresa, que entretanto cresceu e se expandiu. Estão em hotéis de luxo como em campos agrícolas (para afastar as aves que prejudicam determinados cultivos) e até num centro comercial. O Vasco da Gama, em Lisboa, tem duas águias e dois tratadores de serviço para vigiar a zona exterior, da esplanada.

Trabalho minucioso e todo legalizado

Entretanto, o Vasco e a Gama (foram assim baptizadas as águias) já se tornaram uma atracção. "Há pessoas que querem fazer festas, outras que querem fugir a sete pés, há de tudo", conta Alberto Silva. Há cerca de um mês que está a trabalhar com estas aves: todas as manhãs as vai levantar aos aposentos (pernoitam num local concedido pelo centro) e anota os pesos – tanto dos animais como da comida. É preciso calcular tudo ao grama. Mas, antes de mais, a primeira coisa a fazer é perceber qual é que está mais disposta a trabalhar: "Se estiver fora do poleiro ou aos pulinhos, é porque está com mais vontade", explica. Depois, traz a ave ao braço e atravessa o centro para chegar à esplanada. Há muitos barulhos e distracções, por isso tenta que a passagem seja rápida. No início, tinha de controlar a águia que ficava interessada numa montra de carne: "Tive de a ir aproximando para ela perceber que havia um vidro e que era difícil lá chegar."

Os pedidos de legalização de aves de rapina têm vindo a aumentar nos últimos anos – quem confirma é o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) que, aliás, tem de ser sempre informado do paradeiro das aves registadas. Lembramos, ainda, que se nota uma tendência desde 2017: "Começaram a aparecer pedidos de espantamento de aves urbanas como pombos e gaivotas com recurso a aves de rapina."